quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Senhora

Ventania, senhora dos meus cabelos.
Hoje, estrelas de junco, verão não mais cabe em mim.
Hoje, estrelas de feno, faróis escondem meu corpo.
Estrelas de feno, de terra seca, de água suja, estrelas de ferro, de terra fértil,
de negros olhos grandes, estrelas de olhos, senhora das estrelas.
Estavas de branco, senhora dos meus amores,
de brancos dedos de prata dos meus dedos pegajosos.
Estavas de ares novos, senhora dos meus sonhos pegajosos.
Arestas, senhora dos meus olhos, arestas perigosas
e aranhas, senhora anti-corpo. Olhos pegajosos, senhora dos meus versos .
Em teu corpo, minha velha estrada, senhora dos meus ais, doces de açúcar mascavo,
doces dentes brancos, teclas brancas de piano.
Os muros altos, senhora dos meus atos, os gritos brancos, senhora dos meus espaços,
meu sonho, senhora do meu sono, grandes beijos, senhora da minha boca.
Senhora de grandes olhos negros em festa, senhora da minha pele,
e das montanhas, senhora das minhas naturezas,
e dos rios, senhora das minhas águas de eternas luzes brancas.
Senhora dos meus domínios, povo descalço, grande rio pegajoso,
dos meus vícios, dos meus dedos, dos meus horários, senhora das minhas necessidades,
das minhas idades, das letras, do barro pegajoso,
das lesmas, das lentas mortes, das lentes das minhas luzes apagadas,
das chuvas, de branco, senhora pacificada.
Senhora dos meus sonhos, imensos campos de trigo, terras secas, beijos, beijos,
dos meus intestinos, filha minha, irmã dos meus desertos, dos rios, dos vales,
senhora dos pedaços e dos ventos, dos relógios velhos, aposentados,
das notícias de sangue, senhora do meu sangue.
Das minhas pernas, das minhas almas, senhora das minhas armas brancas, dos meus fuzis,
dos lençóis, dos orgasmos, luzes apagadas, dos fenóis da minha interna química corporal,
das máquinas, das tintas, das fumaças, das cores dos vestidos verdes, velhos, vencidos,
dos vencidos, branca senhora dos olhos da noite.
Do drama do tango a média luz, dos semáforos, dos fósforos, das varandas,
dos retirantes, senhora dos pés descalços,
do trigo, de julho, das lãs, senhora dos apressados,
dos ares dos tempos, dos templos.
Senhora do meu espanto, eu te preciso,
mesmo com todos os meus erros de concordância e de inglês.

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