sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Um lago azul no olhar






Do diário de Tânia sobre seu encontro com o passado.

19 de agosto – a caminho de Brasília.

Dentro do carro é um inferno quente, mas não adianta abrir a janela. Um caminhão me impede a ultrapassagem na estrada onde o asfalto é apenas uma lembrança, por isso decido parar no posto, que me anuncia ser a última oportunidade de comer decentemente. Além disso, meus cabelos estão duros da poeira e o ar condicionado do carro não funciona. O eletricista do posto diz que o conserto vai demorar pelo menos uma hora. Tudo bem, não tenho pressa. Abro o porta-malas e procuro na bagagem uma muda de roupa e toalha, pego a frasqueira e caminho até o banheiro. A ducha de água fria alivia o calor. Vejo a água levar para o ralo o pó da estrada. Os cabelos enrolados na toalha, visto com cuidado a roupa para não molhá-la no chão encharcado. Fora do chuveiro e dos reservados, um espelho de bom tamanho e uma bancada com tomada onde ligar o secador, é tudo que eu preciso para melhorar a aparência cansada de tantas horas rodando pelo cerrado. Procuro uma escova na frasqueira, mas não consigo me concentrar na busca, inquieta com a mulher ao meu lado que insiste em me olhar pelo espelho. Alguma coisa naqueles olhos azuis me lembra alguém. Uma mulher grande, vestida de cor turquesa, os cabelos claros crespos por uma permanente mal feita. Tem aparência de desleixo. Olha insistente e se aproxima com um sorriso acanhado. Seus dentes são bonitos e afinal consigo lembrar.
-Tânia – ela diz, e sua voz era a mesma há trinta e cinco anos.
Recordo muito bem quando a vi pela primeira vez. Era linda, com seus cabelos claros irradiando a luz, e esse mesmo sorriso de criança. Naqueles dias era recém casada e esperava um bebê.
-Eu nem acredito! Maria Augusta. No meio do nada – aquele estradão sem fim no cerrado.
Ela também não tem pressa. Está esperando um ônibus que só vai chegar dali a duas horas. Vai para São Paulo depois de morar em Cristalina por dois anos. Os filhos estão espalhados pelo Brasil e ela se divide.
Tanto tempo passado convida a confidências. Eu conto que fiquei viúva, que minha filha trabalha no gabinete do ministro, que estou de passagem, no mês que vem embarco para a África, agora sou missionária. Falo dos netos e abro a carteira para mostrar as fotos.
Ela me olha nos olhos e não posso deixar de me sentir incomodada. Deploro que tenha mudado tanto e acho que ela percebe isso. Chora de repente e fico constrangida, não tenho o que dizer. O tempo nos tornou duas estranhas e sei que devia fazer algum gesto de aproximação, uma palavra de carinho, um toque nas mãos, mas, só de pensar, estremeço de agonia. Lembro que tenho lenços descartáveis na frasqueira e os ofereço. Ela enxuga os olhos e assoa o nariz ruidosamente. Acalma-se aos poucos e eu rezo para que pare logo.
Gostaria de não ter que ficar ali, que o carro estivesse pronto e então nos daríamos as mãos e desejaríamos felicidade. Eu seguiria em frente, ela também, e tornaríamos a nos esquecer, quem sabe para sempre. Mas não era assim que ia acontecer, eu sabia. Ela falaria do passado e iríamos lembrar de tudo.
-E como vai Otávio?- eu falo. Fui eu que toquei no assunto, como levada por uma força irresistível.
-Ele morreu. - ela diz. Eu respiro aliviada.
Na primavera de 1970 estivemos todos envolvidos num alucinado romance. Éramos voluntários num projeto com as tribos do Araguaia, promovido pela Universidade de São Paulo. Meu marido Otávio, antropologista, desenvolvia sua tese de mestrado. Eu o tinha acompanhado, decidida a escrever um livro sobre a luta dos índios pela posse da terra. Conhecemos Marcelo e Maria Augusta no acampamento. Faziam parte do Projeto Rondon. Ele era médico recém formado e ela ainda estudava sociologia. Estava grávida e perdeu a criança no primeiro mês no acampamento. Eu a admirei por não ter desistido do projeto. Durante algum tempo tememos por sua vida. Afundou-se na cabana, atendida pelas mulheres índias, recusando os serviços do marido, a pele branca quase transparente. Um dia a vi nadando com os curumins, nua como eles, numa grande algazarra. Havia se curado.
Enquanto durou o trabalho nos dedicamos de corpo e alma, mas no fim da estiagem as águas do rio nos obrigaram a um confinamento que durou dois meses. Nesse período de convivência incorporamos os hábitos da tribo de partilhar os companheiros, primeiro por tédio, depois por atração e quando as águas baixaram não sabíamos mais como sair daquela rede. Enquanto estivemos no Araguaia continuamos a viver dessa forma, mas o fim da missão obrigou-nos à escolha. Otávio confessou que estava irremediavelmente apaixonado por Maria Augusta. Os dois já haviam decidido que iam embora juntos.
Nos meses que se seguiram o mundo virou de cabeça para baixo. O projeto do livro foi esquecido e, já em São Paulo, não conseguia encontrar meu rumo. Fui procurar por um advogado, que providenciou os papéis da separação.
Marcelo sumiu na floresta. Durante muito tempo sua família e organizações de direitos humanos o procuraram, numa peregrinação por repartições e prisões, sem sucesso. Eu sabia que ele havia se ligado a um grupo de guerrilha que passou pelo acampamento no inverno de 1972, uns meses depois da minha partida, porque algumas pessoas que trabalhavam com Otávio costumavam me visitar, mas o assunto era tabu. Ficava às vezes pensando em como teriam sido nossas vidas se eu nunca tivesse aceitado o convite para aquela aventura no meio da floresta. Talvez Marcelo ainda estivesse vivo.
Pedi a separação judicial à revelia de Otávio. Muito tempo depois consegui esquecer. Casei de novo, tive filhos, fiquei viúva.
-Quanto tempo faz?- eu volto a falar, sem perceber que entre a primeira pergunta e esta outra um tempo sem fim havia se passado.
-Vinte anos.
-Vocês foram felizes? – eu pergunto e, embora aparente indiferença, preciso mesmo saber a resposta.
-Um pouco, como todo mundo. Ele me deu quatro filhos.
-Como foi que ele...-ainda hesito em especular, mas ela parece compreender que não quero parecer indelicada.
-Morreu?Acidente, na floresta. Era uma armadilha antiga para pegar jacarés. Ninguém sabe como, ele conhecia aquele lugar como ninguém.
Eu tenho uma intuição de que não é só isso, pelo jeito como ela responde. As mãos nervosas torcem o lenço de papel.
E Marcelo? Ela tinha notícias dele? Quando vi já havia feito essa outra pergunta. Sou eu quem força a passagem e ela vai abrindo a porta, sem oferecer resistência.
-Não, nunca mais. -Nem dele, nem da família, que decidiu não recebê-la quando voltou para São Paulo. Também, o que ela esperava?
Um café me faria bem. Preciso também comer alguma coisa para enfrentar o resto do dia. Faço o convite.
Ela faz um gesto com a mão – Eu não posso, tenho a pressão alta. - enxuga o rosto com o mesmo lenço de papel, o suor umedecendo a raiz do cabelo.
Nessa nossa conversa descubro aos poucos a menina que conquistou meu marido. Sua voz ainda é doce, as mãos acompanham a fala num balé delicado, sugerindo que eu a siga pelo tempo, em busca das explicações que não aconteceram. Fala um pouco das dificuldades que enfrentou para recuperar as anotações de Otávio, que viraram um livro póstumo muito procurado. Isso me surpreende, eu nunca tive notícias sobre esse livro. Anoto o título, prometo procurar nas livrarias.
Decido falar das minhas próprias dificuldades, perseguida e impedida de dar aulas até o final dos anos 80, mas não consigo ir muito além de umas poucas confidências, a mágoa adormecida teimando em permanecer no limbo, para não despertar fantasmas. Vem um café na bandeja, com o pão de queijo fumegando, e eu agarro a xícara como um náufrago aos restos da embarcação para não ter que continuar falando sobre tudo aquilo que é tão difícil recordar.
O tempo passou. O eletricista me entrega as chaves do carro, que está pronto para partir. Ela se apressa em me dar o endereço e telefone. Eu também lhe dou o meu, impresso no cartão da missão.
-Adeus – ela diz, com sua voz de menina. Olho seus olhos escondidos sobre dobras e eles têm o mesmo brilho de um lago sob o sol.
Um encontro com o passado. Um truque do destino, no meio do cerrado. De um lado a vegetação das estepes, do outro o posto ficando para trás pelo retrovisor, como a minha juventude no fundo dos olhos daquela mulher.

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