quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sempre fui fiel

A cadeia da cidade, esburacada nas paredes pelas muitas tentativas de fuga, mostrava as pedras da construção açoriana, antiga e forte. Na verdade, as tentativas eram prosaicas, feitas com garfos e colheres usados como ferramentas, e só faziam pequenos buracos no reboco, deixando à mostra as pedras, cimento e areia, mas sem conseguir abalar a estrutura. Por isso consideravam a cadeia local como muito segura e a superlotação da única cela coletiva era justificada pela administração central como “um pequeno problema” diante da demanda estadual por vagas no presídio.
Uns tantos presos se amontoavam na cela em volta de uma cuia de chimarrão, que a carcereira havia preparado com cuidado para não entupir a bomba. O rapazinho, muito novo e com a cara cheia de espinhas, contava animado sua façanha. Junto com a mãe-de-santo local, haviam comprado o prostíbulo e arrebanhado algumas namoradas que ele se incumbia de recrutar, meninas das colônias, polacas cheias de fogo e amor para dar. O menino era apenas um projeto de cafetão, não tinha experiência e deixou-se enganar por algumas menores, que estavam sendo pagas pela concorrência para tirar de campo os dois, novos no ramo. A mãe-de-santo foi presa na cela ao lado, mas logo foi solta por um dos freqüentadores do terreiro, advogado e vereador. Quanto ao rapazinho, estava curtindo a nova experiência, animado com a platéia carente de novidades.
Na cela onde Mãe Cidinha do Afoxé havia estado se encontrava agora uma mulher estranha, cheia de marcas no corpo e no rosto. Tinha a fisionomia atormentada de louca. Havia matado o marido e se recusava a conversar com o advogado, o mesmo que havia soltado a mãe de santo e que a família da moça contratou, levados todos pela fama do causídico, que corria a cidade, e que dizia ter o tal um trato com o dianho, pois não perdia suas causas, fosse o cliente culpado ou inocente.
A moça era culpada mesmo, pois a encontraram junto ao corpo do marido segurando firme a arma do crime, uma faca bem amolada que a vítima usava para preparar churrascos, carneando boi e porco. Era mulher pequena e franzina, como podia ter dominado aquele polaco grande, que tinha fama de valente e enfrentava touro bravo no pasto?
O advogado se esforçava para ter paciência, mas a moça, obstinada, nem o olhava, segurando com as duas mãos a cabeça e olhando o vazio, enquanto o corpo balançava ligeiramente, para frente e para tras, como se estivesse em um barco atracado e embalado por ondas batendo no casco. Para longe parecia ter partido seu juízo. Estava já desistindo, mas lembrava sempre que a moça era filha de gente influente da cidade, pai e mãe de berço, donos de gado e pasto. Os cabelos desgrenhados e esse olhar vazio lembravam a Ofélia da tragédia grega. Ele estava intrigado com crime. Sabia que o polaco era violento com os trabalhadores, tinha fama de valentão. Casou com a filha do patrão contra a vontade da família, mas a moça foi tomada de grande arrebatamento e ameaçou matar-se se ele não fosse seu. Filha única, acabou convencendo a família, que nunca lhe enfrentou os ataques de fúria quando contrariada. Estavam casados fazia alguns anos. Não tinham filhos. Moravam nas terras mais isoladas, bem perto da fronteira com Santa Catarina, já na descida da serra, terras de grandes precipícios, pouco valorizadas para criar gado. O pai castigava assim o intruso, do qual queria distância. Diziam os poucos vizinhos que ouviam pela noite gritos horríveis de almas agoniadas, e que todo mundo se benzia quando passava pela casa grande, mas o certo é que o patrão transformou a terra, plantando frutas, criando porcos, e prosperou, contra o vento e a vontade de todos.
Não era mulherengo. Ninguém sabia os motivos que levaram a dona a dar fim ao seu grande amor e era preciso arrancar a verdade daquela criatura ou inventar uma boa história para construir a defesa e assim não ter sua primeira derrota. Precisava manter a fama, que, mais que os honorários de vereador, garantia sua boa vida.
Os ouvintes do rapazinho já se haviam cansado de tanta lorota e agora desfaziam a roda de chimarrão, se arrumando pelos cantos e nos colchões espalhados na cela. Pelas grades observavam as tentativas do advogado, enquanto a mulher continuava olhando para o vazio.
Ninguém sabia do delegado, homem cuja presença na delegacia era tão rara que poucos presos já tinham tido a oportunidade de conhecê-lo. Como as transferências para o presídio mais próximo não eram tão freqüentes, alguns presos já estavam na cadeia há uns pares de anos, e haviam conhecido alguns dos muitos delegados que apareciam de tempos em tempos, mas que rapidinho pediam transferência da cidade para outros lugares mais prósperos. O atual tinha comparecido para o trabalho tão pouco que nem os carcereiros e soldados sabiam de seu paradeiro. Um crime de morte era novidade maior que as histórias do rapaz das espinhas e era raro na cadeia. Por isso ninguém estranhou quando o delegado em pessoa adentrou o local, com sua cara de poucos amigos, usada para impressionar a platéia e que causava sempre o efeito desejado.
O advogado animou-se, porque a ré era primária, estava em estado de choque, não oferecia perigo a ninguém, portanto um mandado de soltura estava a caminho, ele precisava providenciar, o delegado devia entender que “... a minha cliente é inocente, não devia estar num local como esse, a menina é formada em educação física, portanto tem privilégios.”
O delegado mau olhou o sujeito, entretido em ler os relatórios que a carcereira havia preparado, na falta de um secretário, entre a limpeza do prédio e o preparo do almoço dos presos. A moça, como já havia notado, era muito prendada. Não podia indicá-la para uma promoção, pois perderia a mão de obra qualificada. Olhou o advogado com um ar superior de quem sabe que será transferido em breve para a capital e disse, sem tirar os olhos do papel:
-Deixe de histórias, Dr. Rialdir, que meus homens já mandaram as evidências para a perícia na capital. A dona está encrencada, com os diabos! Melhor aconselhar a moça a dizer tudo, assim facilita a investigação e quanto mais cedo eu acabar, mais cedo ela sai.
O advogado não se deu por achado, sabia também fazer tipo e gostava desse teatro.
-Pois eu estou indo agora mesmo ver a juíza. Vou pedir que liberem a minha cliente e o senhor sabe que isso eu consigo.
Enquanto isso, o rapazinho havia sossegado e só agora se dava conta de que havia uma história maior que a sua nas rodas de conversa da cela. Olhou bem firme para a cela em frente, onde a Ofélia continuava na mesma posição, e reconheceu a moça que freqüentava a casa de mulheres que havia comprado, justamente a mais atirada e a que mais lucrava nas noites de esbórnia. Cutucou o companheiro ao lado e perguntou o que ela fazia ali, sem contar de onde a conhecia. E por uma grande coincidência, o menino fanfarrão tinha a ponta do barbante que ia ser desenrolado, até que se chegasse aos motivos do crime.
A filha única do dono de terra e gado era useira e vezeira da casa de mulheres. De noite saia com o marido, ia dar-se aos prazeres dos homens de passagem, enquanto o seu próprio ficava observando, escondido num canto do quarto. Era a única forma com que o homem sentia prazer.
Chegavam de madrugada, mas as lembranças da noite o atormentavam. Ao mesmo tempo em que queria, rejeitava a mulher. Vingava-se dela e destilava seu ciúme batendo-lhe. Seus gritos eram ouvidos longe. O que ele não sabia é que a mulher não gostava de cumprir suas fantasias e a cada dia mais e mais lhe tinha ódio. Na noite anterior estava preparada, já havia deixado a faca ao alcance da mão. Estava cheia de apanhar, seu corpo era um mapa de violência.
Foi dizendo tudo ao delegado, aos trancos, enquanto o advogado estava ausente, preparando o pedido de soltura. Contou o quanto havia apanhado, como ele a forçava, como não podia contar tudo à família, os filhos que havia abortado. Uma história e tanto, que deu no jornal das oito, que de tão horrível ninguém conseguiu piorar, e que passou a ser contada por toda a cidade, por alguns anos, e que consolidou a carreira do delegado, transferido ligeirinho, e a fama do advogado, que conseguiu a absolvição, pelo tribunal do júri, da pobre mulher brutalizada. O mais estranho é que ela alegava não ter tido outro homem em seu coração e que tudo o que fez foi por amor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário