segunda-feira, 14 de março de 2011

Das Chuvas e dos Sonhos em Antonina

Minha querida amiga me olha com seus olhos congestionados de tanto chorar madrugada afora. Ela é, como eu, uma dessas pessoas forasteiras, que veio parar em Antonina e aqui fez sua vida. Fincou os sonhos na ribanceira de um morro lindo, de onde se descortina a baia, esse mar cheio de velas do Náutico, de canoas dos pescadores, de ilhas novas e antigas, e montanhas, e sol... tanta coisa boa de se ver da janela de casa. E foi juntando suas coisas bonitas pra enfeitar a casa. Todos nós, ao vermos pela TV as casas plantadas no alto dos morros brasileiros, pensamos que as pessoas que moram nelas não podem ter juízo, onde se viu, ir morar no alto, onde casas despencam todo verão! Será que não aprendem? Isso, quando passa na TV. Agora, quando você conhece essas pessoas, participa de suas vidas, sabe os motivos - sejam eles quais forem - que levam essas pessoas pro alto das ribanceiras, e vê nesses olhos molhados a desilusão de perder suas coisas juntadas com capricho ou com sacrifício, sua casa construída do jeito que tenha sido, pra ser seu ninho nos dias de chuva e frio, ou de sol , vento, o que seja, sua proteção e descanso quando volta da lida, e então essa casa tem que ser deixada pra trás, então você abandona sua teoria e chora junto. E como minha amiga querida, mulher inteligente, de fibra, forte, hoje derrotada pela chuva, quanta gente chorou. Todos os moradores do Portinho, alguns até à força, tiveram que deixar seu lar e ficar à mercê da boa vontade de todos. Como devem estar frágeis, essas pessoas tão iguais na sua dor. A teoria, tão fácil de se provar com números e cálculos, se desmorona como as casas dos morros sob chuva forte, quando os atingidos são pessoas que conhecemos.

Um comentário:

  1. Sonia, hora propícia para colocarmos a dor para fora.
    grande texto
    beijo

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