domingo, 6 de março de 2011

Mulher do Mar



“de olhos voltados para oeste/por sobre o mar,/ Fosse áspero o vento ou amena a brisa/ ela seguia postada/ impressa na paisagem” - O Enigma (Hardy).

Não sei o que leva pessoas como eu a fazerem confidências a alguém calado como você. Talvez seja esse seu ar paternal, meio desinteressado, a certeza de que não vai ficar, seu jeito de trovador, de homem antigo, sem sombras nos olhos. Ou a solidão. Nestes últimos dias tenho notado que você perambula pelo mato e fica cismando o horizonte. Pressinto sua partida a cada sol que nasce, e, no entanto, tem se deixado ficar ouvindo minha história. Onde foi que parei?

Ah, sim, foi como disse antes, numa dessas tardes de inverno brusco, sem sol, quando o mar bate nas rochas, esperando chegar até a porta de casa, quem sabe avançar e acabar comigo, tomar de volta as escarpas, subir até o muro de pedra e arrastar minha cabana. O mar é duro como o amor dos homens. Tenho estado por aqui tanto tempo a observá-lo, que entre nós já se formou uma espécie de casamento: nenhum de nós vai a lugar algum, embora ele ameace partir todos os dias e me cause enfado seu cheiro e a instabilidade de suas marés.

Outros homens, antes de você, passaram por aqui e deitaram em minha cama. Homens com destino certo, vida traçada, tinham alguém. Foram como chegaram, assim como você há de se ir. Não me deixaram marcas além daquelas que o vento deixa nas águas. O amor dos homens é duro como o mar.

Sou sozinha e as pessoas da cidade me olham de lado quando saio de casa. Vivo aqui há dez anos e não se acostumaram comigo. Têm inventado estranhas estórias desde que o rapaz apareceu morto na praia. Era um deles. Acho que fui a primeira mulher que ele teve. Um menino, e nem lembro mais seu nome. Dizem que o matei. Como poderia? Era só um menino. Eu não queria que ele viesse mais aqui. Tinha os olhos de cão faminto, sempre implorando. Posso lembrar seu rosto, embora o confunda com outros e é bem provável que lhe tenha acrescentado a barba que me machucava a pele, a ironia dos olhos e o sabor de sal dos beijos. Talvez mesmo seus cabelos não fossem um amontoado de caracóis nem seus dentes fossem tão fortes e brancos. Quem sabe agora essa imagem que eu tenho dele nem se aproxime da real.

A aldeia dos pescadores que você vê do alto das rochas era o lugar de onde ele vinha. Havia um armazém antes do trapiche, onde se vendia mercadorias trazidas de barco da cidade. Ele trabalhava no armazém, foi lá que eu o conheci. Costumava trazer minhas compras, entrava pela porta dos fundos. Não me lembro quando suas visitas passaram a ser tão freqüentes que já não precisavam de motivo. Eu o encontrava aqui quando voltava do banho de mar ou quando acordava tarde. Ele cuidava da horta, fazia café e organizava os manuscritos espalhados, a troco de um pagamento modesto no fim do mês.

Não, eu não o queria. Nem havia notado o brilho estranho dos olhos, seu corpo magro, as mãos nervosas. Mas eu não fazia idéia da tormenta que era sua alma. Era só um menino!

Naquele dia estava tão frio, o mar era como um inimigo , eu precisava de companhia.

Confesso que precisava de alguém. Era como se aquele dia triste fosse a estória da minha vida. E ele estava lá, parado, me olhando. Não sei como foi, lembro apenas das suas mãos nos meus cabelos, seus olhos de cão faminto.

Depois mandei-o embora.

Sua voz me segue até hoje como uma balada dentro dos meus ouvidos, um grito agoniado, um palavrão sonoro, escandalosamente claro, como o som do vento, o frio, o barulho do mar. Foi a última vez que o vi. No dia seguinte estava morto , como se fosse uma dessas gaivotas que o mar joga na praia depois das tempestades.

Esta é a história, homem, mas o que eu quis dizer é que tenho estado aqui tanto tempo, condenada a ser a mulher do mar, meu corpo definhando em noites insones, os cabelos embaraçados, os olhos encovados. Porque só o que tenho ouvido quando acaba o dia é o som da voz dele cortando a noite. E eu o tenho querido de volta, com seu rosto de barba rala, agora lembro, e seu corpo magro, porque ele era o único homem que me foi dado, que me quis sua, e eu o mandei embora, virei o rosto, fiquei surda e ele se foi para o mar. Eu o tenho amado com loucura e, como vê, o amor é um grande engodo. Sei que há de partir por esses dias, então lhe peço, deixe que chegue o verão, que seja um dia calmo de mar manso. Sua partida deve ser como a dos outros, sem marcas além daquelas que deixa o vento nas águas. O mar é violento com o que lhe pertence e o amor é um grande engodo.

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