terça-feira, 8 de março de 2011

Só mais um dia


O delegado Guimarães entra na sala de inquéritos enxugando o suor do rosto com um lenço xadrez. Sua camisa está grudada nas costas e tem um ar cansado. O escrivão datilografa o depoimento de uma mulher idosa de óculos bifocais e vestido escuro. Os olhinhos dela, por trás das lentes, brilham de animação.

"- Está se divertindo com isso, a bruxa!" – pensa. Tinha passado a tarde do dia anterior e parte da madrugada participando das buscas. Nem se preocupa em disfarçar a raiva, ao olhar a velhinha, que tem voz irritante e asmática:

"-... então ele me mandou deitar no chão. Sujou todo o meu vestido. Ninguém respeita gente velha hoje em dia. O sujeito me chamou de vó, ”Deita aí, vó”, como se eu pudesse ser avó de bandido. Claro que eu me lembro da cara dele, rapaz, isso eu não vou esquecer tão cedo..."

O suor brota da pele do delegado como uma mina.

O telefone toca muito alto, enchendo a sala até o limite do suportável. É o tenente Bastos:

"- Pegamos os caras, doutor. Estavam numa pensão na Quinze de Maio. Tem dois “de menor”, estão todos enjaulados. O chefe tem dezessete anos e foi baleado, coisa feia. Um dos caras apagou, mas já removemos o corpo pras Clínicas. Oficialmente morreu no caminho."

Mais um caso encerrado. Tem um sanduíche de presunto meio comido e o café da garrafa está morno e azedo. Olha cansado o escrivão e a velhinha e levanta.

”-Almoço” – rosna para as paredes.

Lá fora os repórteres de sempre caçam notícias com sangue. Na sala de espera um travesti com restos de batom nos lábios, desgrenhado e com a roupa amassada, uma prostituta e seu cafetão, ela com o olho roxo e os lábios partidos. E uma mulher imensa, com o vestido manchado de gordura na barriga, os cabelos oxigenados, conhecida na praça como vendedora de loteria, freguesa da casa, porque além dos bilhetes passa drogas.

Sente-se enjoado. Vem se sentindo assim há anos. Caso suba a rua, o tráfego o engole, a multidão o atropela. Decide-se por andar até a lanchonete duas esquinas para baixo. Nesse horário ela já vai estar vazia, as pessoas se dirigindo para o segundo expediente de trabalho.

Anda com as mãos no bolso, devagar, desviando da multidão, pensando nas férias só dali a dois meses, na praia isolada, com as crianças. Sua ex-mulher vai viajar com o novo namorado. Lembra do Oswaldo, com a voz untuosa, anel de ouro no dedo mindinho, e da última proposta, um negócio de muita grana. A "proteção" aos pontos de entrega do bagulho faz anos se tornou um filão de ouro disputado pelos outros delegados da área. O Oswaldo é o cara que esta se dando melhor, o mais antigo, da velha escola, os lábios úmidos e os olhos azuis, frios como gelo.

"- Quem chegar primeiro leva." Ele também havia chegado nessa leva A casa na praia, a moto, o barco. O saldo no banco. O caso da cantora lhe valeu mais grana, em notas verdes. Uma mulherzinha que incomodava os graúdos. E o namorado se virando para provar que não foi suicídio. Alguém da Sétima havia se encarregado de calar o bico do cara e tudo parecia estar se aquietando.

Seu estômago dá algumas voltas fazendo um ruído indiscreto.

A fachada da lanchonete é um monumento ao mau gosto, com a pintura marrom e as portas verdes. Lá dentro, os garçons limpam as mesas. Da cozinha vem o som metálico dos talheres e da louça sendo lavados.

A dona está sentada numa mesa no canto, encostada à parede. Olha para o nada, como se visse através do copo de suco à sua frente. Os cabelos são pretos , lisos, bem tratados. A saia vermelha, de um tecido oriental com estampas, se cola às pernas, escondendo e moldando. Seus pés aparecem por baixo da mesa, miúdos e cobertos por uma espécie de sapatilha que se enrosca trançada pelo tornozelo. Visual fora de moda, mas a roupa é cara .

Ela lhe lembra alguém que já viu há muito tempo, não sabe onde. Tem certeza de que não está enganado“eu não esqueço um rosto” - gosta de se gabar. Uma balzaquiana, embora à primeira vista pudesse aparentar menos idade. Em torno dos lábios tem sulcos profundos. Os cabelos, naturalmente, são tingidos, ninguém tem essa cor de cabelos, quase roxo, quase preto. Quem é ela? Tenta buscar na memória. No tempo da faculdade no velho Largo do São Francisco. Era isso! Tânia Maria não sei de quê. Naquele tempo prendia os cabelos negros no alto da cabeça. Era muito engraçado o modo como ela dizia "- vou à luta!", cercada de luxo. Costumavam chamá-la de festiva, estava envolvida com o grêmio, o jornalzinho e o pessoal mais “da pesada”, mas os dois haviam flertado uns tempos. Eram jovens, iam a festas, dançavam. Era filha do professor de direito penal, agora estava lembrando tudo.

Ainda é especial, não combina com o ambiente da lanchonete. Sente-se envergonhado das manchas de suor embaixo do braço. A calvície e o bigode branco não ajudam a identificar o rapaz que fez tanto sucesso com garotas. Não vai reconhecê-lo, com certeza. Ela faz parte do passado que não vale à pena lembrar, um tempo de idealismos que não combinam com sua carreira de delegado.

Quando se formou, tinha esperanças de conseguir emprego no escritório de algum advogado famoso e seguir carreira, mas ao invés disso foi trabalhar num buraco na periferia. Acabou mesmo entrando para a polícia, como seu pai, que era “meganha” e morreu pobre e honesto, sonhando ver o filho virar doutor.

Um dia, sua mulher apareceu com um pedido de divórcio apropriado para os dois. Agora é solteiro de novo e vive sozinho num apart-hotel, onde recebe os filhos nos fins de semana e uma ou outra namorada para espantar o medo dos pesadelos. O garçom se aproxima mal-humorado, estava esperando a mulher sair para almoçar. É um homem pequeno, com cara de quem sofre do fígado. O delegado costuma brincar com ele, mas viu que hoje tem que pegar leve.

- Que é, a patroa dormiu de cadeado?

- Queria ver você mostrar canjica pra freguês com o salário que eu ganho aqui e quatro barrigudinhos chorando em casa. Mas, se o doutor morrer com os dez por cento... - diz, sugestivo.

- Traz um chope e um americano no prato. E uma branquinha pra quebrar o gelo. E escuta aqui, meu chapa, desmancha essa cara feia senão vai ficar sem gorjeta.

A mulher agora está com os olhos fitos nele e não vai adiantar fingir que não a reconhece. Sorri para ela, sem jeito. Vê que está vindo na sua direção. Levanta-se e lhe oferece a cadeira a sua frente. Ela ainda usa o perfume francês de lilases e ele fica emocionado e tímido como um garotinho, mas procura esconder o embaraço.

- Carlos Augusto, não é isso? Do largo!- ela diz, de maneira muito formal, o que não ajuda a descontrair. - Ou, atualmente, o delegado Guima da sétima DP.

Nossa, ninguém o chama de Carlos Augusto.

O garçom o socorre, traz o chope. Aponta o copo, oferecendo, mas ela recusa.

-Ah, não, obrigada. Já estou de saída. Atualmente não bebo álcool e nem fumo. - O tom é como se fosse mais uma constatação para si mesma do que uma afirmação. Ela também parece estar com dificuldades para iniciar a conversa, mas é mais decidida que ele.

- E pode dizer como sabe tudo isso a meu respeito?

Ela ri com franqueza, divertindo-se com o seu embaraço e quebrando o constrangimento dos dois.

-Tenho lido seu nome no jornal, volta e meia. Gosto de ler jornais baratos, que estampam carnificina. Ali sempre é possível, com paciência, entrever alguma informação que nos dê pistas da verdadeira história. Optei pelo Direito Civil, mas o criminal ainda me seduz, como o grande júri de um caso sensacional, onde a testemunha chave aparece nos últimos minutos, acompanhada de inquietação do promotor e do assassino, como nos velhos filmes de Perry Mason. Lembra como gostávamos da série?

-Infelizmente. Essas lembranças fazem mais mal de que bem. Por causa delas a gente é obrigado a constatar que o sonho acabou mesmo. Acontece que agora eu tenho que lidar com a vida real, com crimes banais, sem mistério. Não são cometidos a troco de heranças ou grandes desfalques, mas por briga de quadrilhas, vingancinhas, bebedeiras. Claro que existem grandes golpes, mas esses nem chegam aos jornais, os federais tomam conta. Não grave isso. - disse sorrindo e piscando para ela.

Ela não devolve o sorriso. Talvez adivinhe no olhar do delegado uma ponta de ironia.

- É só uma brincadeira, delegado. Sei que trabalha na boca do lixo duas quadras daqui. Na verdade, sei dos seus casos nos últimos anos, isso por causa de Aída. Ela era minha amiga.

Ela o vê empalidecer, mas continua:

- Você há de convir que o caso não mereceu o cuidado devido. Tudo foi abafado, concluído rápido demais, mas tem gente que não esquece. Aída não era uma simples cantora, era uma espécie de porta voz da classe. As coisas que ela sabia outras pessoas também sabem e é difícil sumir com todo mundo, concorda? O namorado é um advogado competente. Lembra a entrevista que ela deu para a TV, uma semana antes do “acidente”? (ela mastigou um pouco a palavra acidente, fazendo uma careta).

Olha-o diretamente nos olhos. Perceberia ele agora certo desafio? Não, ela não gosta dele. Decididamente ele é alguém que passou para o outro lado. Deseja que ela saiba como é a rotina de uma delegacia. Ela, tão limpa, cheirando a esse perfume francês, aquela roupa se enroscando pelo seu corpo, querendo parecer simples. Deseja que ela veja a sala de interrogatório ao meio dia, com as moscas zumbindo e o ventilador velho, o sorriso sádico do tenente Bastos. Ou o apartamento acanhado onde nasceu seu primeiro filho, as fraldas dependuradas na cozinha, as janelas dando para um pátio estreito e sujo.

- Sei o que está pensando- ela diz, compreendendo o olhar dele para as suas roupas- Algumas necessidades até justificam esquecer sonhos, mas não princípios. Aquele atestado de óbito está registrado em cartório, impresso em jornais, tatuado aqui – aponta a cabeça. – Não consigo esquecer, e tem mais gente que não consegue. Tem tanta coisa sendo desenterrada, quem é que garante que essa não é mais uma?

Ela se levanta e uma brisa fresca o envolve, com o movimento do ar se deslocando. Abre a bolsa e deixa sobre a outra mesa duas notas de dez reais.Ele havia se enganado. Não é a mesma moça mimada do largo. Ela sorri e acena, saindo pela porta verde-abacate.

O delegado Guimarães aproxima o prato e põe-se a comer devagar. Lá fora recomeça o movimento de gente que faz compras. As buzinas tocam no trânsito congestionado. É tudo igual ao dia anterior, só que hoje se sente mais miserável.

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