domingo, 26 de junho de 2011

do meu diário de Espanha


Sábado, 22/09/2007


Hoje foi o dia da viagem às Sierras de França. Trata-se de um grupo de "pueblos", dispersos pela serra. Esses povoados foram formados por judeus convertidos, que fugiram da perseguição dos católicos (dela, a rainha malvada,claro!) e construíram suas casas ali, no século XVI. Miranda, San Martin, La Alberca, Mogarraz, outros dois dos quais não lembro o nome. As casas foram construídas de pau e adobe, às vezes tapadas com madeira. Tinham três pavimentos. No térreo, ficavam os animais. No primeiro piso, a casa, no segundo a cozinha, com o fumeiro, onde se colocavam os embutidos e as carnes para secar.
Todos os "pueblos" possuem as mesmas construções, mas Miranda é tétrico. É pouco habitada e as ruas estreitas de propósito, para o sol não entrar e torná-las mais fresca.Embora a serra seja muito alta, no verão faz muito calor porque o clima é seco. As casas quase se tocam no alto. São construídas avançando um pouco cada piso. As igrejas tem torres separadas. Isso se deu para que o burgo não tivesse que pagar à igreja pelo uso do sino (para anunciar festas, bodas, falecimentos). As igrejas são muito ricas por dentro, mas por fora são de construção romana, sem o aparato gótico. São pequenas. As aldeias tem entre 100 e 600 pessoas. Algumas estão quase desertas. Nos anos 50 muita gente teve que se mudar dali, por causa da fome. Algumas pessoas se foram para Barcelona, outras para Madrid e outras para as Américas. Há vinte anos, alguns filhos dessas pessoas voltaram e retomaram suas casas (a maioria construída no século XVI). Reformadas com luz e água, servem de casa de verão. Há cinco anos, começou na região o turismo rural e essas aldeias estão começando a ter fonte de renda.Mas quase não se vê crianças, só los mayores (todos de bengala). em San Martin e La Alberca há muita loja de "artesanas". San Martin tem lindos trabalhos em prata e conserva a tradição das danças mouras, com vestimentas ricas enfeitadas. Em Miranda existem muitas casas abandonadas. Escudos e símbolos da igreja nas portas das casas (do tempo da inquisição). Todas as aldeias são rodeadas de fortaleza (muros de pedras) e possuem, como em Toledo, Sergóvia e Ávila, portões de entrada, só que, diferente daquelas cidades, não foram usados para cobrar tributo. Em uma das vilas havia um castelo em ruína, que foi aproveitado para instalar o cemitério. As praças de touro eram muito simples, quadradas, com entradas para os toureiros em pedra. Ainda são usadas nas festividades. O ápice da viagem foi quando chegamos ao pico mais alto da montanha (1.800m), quando avistamos todos os povoados bem abaixo. As montanhas, cobertas de pedras ásperas, brancas, verdes, vermelhas, sem quase nenhuma vegetação, onde se construiu um mosteiro de frades capuchinhos e uma igreja. Chama-se Peña de Francia. É inacreditável a visão maravilhosa e mágica do mundo lá embaixo. Faz parte do caminhos de Santiago. Um dos caminhos, pois existem alguns caminhos, o mais conhecido atravessa o País Basco, saindo da França, e vai até a Gallícia. Este que vi passa por Salamanca, sobe a serra e vai adiante até a Gallícia. Não levei a máquina fotográfica e perdi a foto de um momento raro da minha vida. Queria reparti-lo com todosos que amo, mas o destino, a minha distração na hora de sair, sei lá o que mais (Alzheimer???) e eu deixei a máquina na residência. Comemos nesse lugar. Cada um de nós levou água e compramos em três um pão de Salamanca (um grande pão redondo, recheado de jamon e chouriço. Repartimos o pão,tomamos o vinho tinto (muito bom) e brindamos àquele momento mágico. Minhas companheiras foram uma japonesa e uma belga. Três mulheres de três continentes. Conversamos, trocamos confidências e informações sobre nosso país. Tudo em espanhol, completado por gestos e gargalhadas. Sentadas na grama seca, a um metro e meio de um precipício, com águias voando muito perto. O tempo estava limpo, seco e frio naquelas alturas. Não tenho foto, mas nunca vou esquecer. voltamos à Salamanca às 19:00 h. Tomei um banho e dormi. Estava em cacos de tanto subir e descer as ruas dos pueblos.

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