segunda-feira, 5 de setembro de 2011

"Causos" de Antonina - II

Dona Iza

Contadora de histórias conhecida na cidade, dona Iza, professora e catequista querida por todos, fala que o cemitério do Bom Jesus e a Igreja do mesmo nome foi construída por antepassados seus e doada à cidade. Ela cresceu brincando no cemitério com as irmãs e amigas. Parece uma atividade estranha hoje em dia, mas antigamente as pessoas visitavam os cemitérios e eles faziam parte da vida e da morte, de forma natural. Os túmulos, com lápides de mármore, contavam história de quem ali estava. Havia muitas crianças enterradas, vítimas da febre amarela e da gripe espanhola.

Um dos túmulos sempre a impressionava, porque pertencia a sua família e continha na lápide a seguinte inscrição: 1873 – Antonio – 8 anos Hipólito – 16 anos – Vítimas da Vingança. Resolveu perguntar à sua mãe, que lhe contou a seguinte história:

Por volta de 1860 , um de seus parentes, pessoa de certa projeção na comunidade, foi designada como juiz da cidade. Naquele tempo, não havia como colocar um magistrado no cargo, ninguém queria vir para uma cidadezinha pequena como era Antonina. O nome dele era Jó Balduino Lopes, casado com dona Guiomar. Pois bem, nesse mesmo tempo havia também um bandido muito temido por todos, cujo apelido era Veado. Ele morava numa chácara no morro onde hoje é a Caixa D’Água.

Um dia, uma criança subiu num pé de laranjas e começou a comer as laranjas da chácara do homem de maus bofes. Ele disse: Olhe só que passarinho danado, comendo minhas frutas! E sacou da espingarda, atirou e matou a criança.

Foi intensa a comoção na cidade. A mãe da criança ficou em desespero e todos queriam que o assassino pagasse pelo crime. Entretanto, Jó, que era uma pessoa do povo e que fora incumbido de julgar o crime, teve muito medo do bandido, porque ele ameaçava matá-lo e à sua família quando saísse da prisão. Jó inocentou o criminoso e ele foi solto.

Quando a mãe da criança soube do resultado do julgamento, ficou muito revoltada. Dizem que ela lançou, numa frase, a seguinte profecia: “Meu filho não ficará sem vingança.” Dois meses depois, o filho mais novo do juiz morreu afogado. Em seguida, seu filho de 16 anos, e assim, sucessivamente o juiz e Guiomar foram perdendo seus filhos. Seis deles morreram em 11 anos. A mãe tinha a face deformada de tanto chorar a morte deles.

O túmulo da família no cemitério confirma a história. No seu entorno as datas das mortes selam a vingança da mãe inconformada

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