sábado, 24 de setembro de 2011

Copiado do Cinema Secreto Cinegnose

Embora ambientado na ansiedade coletiva frente à proximidade do “bug do milênio” do ano 2000, "Songs From The Second Floor" do sueco Roy Andersson não perdeu nada da sua atualidade e relevância. No filme, o colapso financeiro e a crise espiritual são os dois lados de um mesmo movimento marcado ao mesmo tempo pela fé e angústia diante de instituições econômicas e religiosas que não funcionam. Tudo narrado com muito humor negro e "non sense".


Quando pensamos na Suécia ou nos países escandinavos lembramos “daquele lugar com chocolate” ou de uma sociedade economicamente justa e com um louvável senso de igualdade. Mas desde os atentados terroristas impetrados por um jovem noruegues direitista, passamos a prestar a atenção para o “dark side” da cultura nórdica tal como o forte movimento Death e Black Metal, o latente espírito Viking rodeando a cultura jovem, e o existencialismo cristão do filósofo dinamarquês Kierkegaard que mescla a fé com a angústia (muito presente nos filmes do sueco Ingmar Bergman, por exemplo).

"Songs from the Second Floor" (Prêmio do Juri no Festival de Cannes de 2000) é uma comédia com forte humor negro e “non sense” que aponta para esse lado sombrio. Dirigido e escrito pelo sueco Roy Andersson, o filme é uma surpreendente colagem de referências estéticas tais como “Fargo” dos irmãos Coen, “Playtime” de Jacques Tati, os ambientes sombriamente cleans de Kubrick, as pinturas de Edward Hooper (incluindo a versão ao inverso da sua obra-prima “Notívagos”, como se fosse vista de dentro para fora) e o humor “non sense” do grupo inglês Monty Phyton.

Com esse filme Andersson iniciou uma trilogia, cuja continuação foi “Vocês, os Vivos” (2007) e uma terceira continuidade esperada para 2013.

A narrativa é composta por uma série de “sketches” onde a câmera numa se movimenta. Andersson pretende que o espectador mantenha uma relação intensiva com os planos, assim como quando observamos um quadro em um museu (daí as constantes alusões a telas do pintor norte-americano Edward Hooper). As vinhetas são a princípio fragilmente interligadas, mas, aos poucos, começamos a perceber certas recorrências como um enorme engarrafamento sem fim (várias vezes os personagens perguntam “como sair daqui?” ou “onde estou?”) onde ninguém consegue chegar a lugar algum e a referência constante à ideia de que a vida se resume “a comprar algo que possa ser vendido com um zero extra.”

As estórias são compostas por “perdedores”, em sua maioria corretores de bolsa e empresários que testemunham assombrados a ruína da sociedade, quadro a quadro. Ah!... e também um mágico incompetente que tenta serrar um voluntário ao meio e acaba quase partindo-o!

Constantes alusões às telas de Edward Hooper tal
como a clássica "Notívagos" -
relação intensiva com os planos
O mundo parece cair aos pedaços logo na primeira sequência onde um homem é demitido após trabalhar 30 anos em uma empresa e, no seu desespero, em súplica, se agarra aos pés do chefe que simplesmente o arrasta ao longo de um corredor kubrickianamente vazio e muito claro. Depois vemos um rotundo vendedor de móveis falido e desesperado no metrô chamado Pelle (Lars Nordh), coberto de fuligem e segurando um saco com tudo que restou do seu negócio: ele tocou fogo na sua própria loja para poder receber o dinheiro do seguro.

Em meio a um congestionamento de veículos interminável aprisionando pessoas solitárias e quebradas financeiramente, um homem cria uma oportunidade comercial com a chegada do Natal e a possibilidade do apocalipse com o Y2K (o chamado “bug do milênio”): vender estatuetas de madeira com Cristo crucificado. O homem tranquiliza Pelle afirmando que o negócio tem tudo para dar certo com a proximidade da data do aniversário de Jesus. Como Pelle fala, tudo o que ele quer é "colocar comida na mesa da sua casa".

O denominador comum do filme é a princípio a economia e o dinheiro como a raiz de todos os males, inclusive espirituais. Nos sketches estão presentes a hipocrisia da religião organizada, o capitalismo corrupto, o progresso que leva à inutilidade da existência e à solidão etc.

Mas há algo de mais incômodo e radical sugerido por Roy Andersson que torna esse filme de 2000 atual e profético: a aproximação entre a crise religiosa com a crise financeira global.


Economia, Kierkegaard e a fé

Como já viemos desenvolvendo em algumas postagens anteriores (veja links abaixo), a partir das ideias de autores como Karl Marx, Jean Baudrillard e da antropologia, longe de ser uma ciência exata, a economia possui na sua essência e funcionamento um núcleo metafísico e ritualístico. Como Karl Marx sugeriu com a discussão do Fetichismo da Mercadoria na sua obra máxima “O Capital”, o funcionamento do capitalismo é, basicamente, feitiço e magia ao transmutar trabalho em mercadoria e mercadoria em dinheiro. Ou ainda em Baudrillard, onde a economia é concebida como puro “Potlatch” (instituição de tribos indígenas da América do Norte onde se distribuía e destruía a riqueza própria).
Em outras palavras, tal como na religião a economia é fundamentada na fé (ou “credibilidade”) dos seus agentes econômicos em relação a instituições tão abstratas (“mercado”, “valor” etc.) como as das religiões.

Essa aproximação que Roy Andersson faz entre a crise econômica e a religiosa somente é possível com toda a carga do existencialismo cristão de Kierkegaard presente na cultura nórdica.


Soren Kierkegaard (1813-1855):
Fé e angústiadiante do Infinito
Para o existencialismo cristão de Kierkegaard fé e angústia são os dois lados de uma mesma moeda.

Como um ser que se reconhece finito o homem se encontra como o momento da realização de uma totalidade infinita, de uma realidade que o ultrapassa, a Divindade. O Cristianismo tenta resolver essa angústia de forma paradoxal através da união transcendente de Deus e do homem na pessoa de Jesus Cristo. O problema é que essa revelação da Verdade não foi feita por meio de pompas e circunstâncias, mas foi encarnada por meio de um homem obscuro que morreu como um criminoso na cruz. Dessa forma o acesso à Verdade somente foi possível por meio do paradoxo e do absurdo. Por isso, a fé poderia ser resumida da seguinte maneira: “Creio porque é absurdo”.

A mediação entre o Infinito e o finito, entre o homem e Verdade, somente é possível pelo paradoxo e absurdo que representa a fé. No filme “Songs fron the Second Floor”, vemos o homem simultaneamente perder a fé tanto na economia como na religião, por serem ambas resultantes de mediações absurdas entre homem/Deus e homem/mercado.

A angústia de Pelle em não conseguir trazer comida para a mesa da sua casa diante do caos e irracionalidade da crise econômica corresponde à perda da fé do homem que vê o fracasso em vender estátuas de Cristo crucificado: “como pude acreditar em um perdedor!”, grita desesperado o homem de negócios.


Angústia e Culpa

A angústia dos personagens do filme de Roy Andersson está na descoberta do absurdo na crença nas instituições abstratas que fazem a mediação entre o homem e o infinito. A crença no cálculo racional (a vida nada mais seria do que “comprar algo em que se possa colocar um zero extra”) leva ao caos e a irracionalidade do todo (o congestionamento “infinito” que é o pano de fundo de várias sequências); ou ainda a sequência em que representantes da Igreja empurram ritualisticamente para o abismo uma menina com os olhos vendados: simbólica sequência em que representa o assassinato do futuro e da esperança em nome da manutenção de um sistema que se esfacela.

A magistral cena final: Cristo jogado no lixo
em um mundo pós-apocalipse
Mas o resultado de toda essa angústia é a culpa e os seus fantasmas que passam a perseguir Pelle: o fantasma de um jovem enforcado pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial e o fantasma da menina de olhos vendados insistentemente tentando dialogar com Pelle que foge a todo custo.

Culpa e angústia: assim como na religião onde a Verdade somente pode ser revelada por meio do assassinato de Cristo, na economia a realização da riqueza e do valor somente pode se realizar por meio da violência e destruição cíclica de vidas humanas. E são justamente esses fantasmas (Cristo morto na cruz e as jovens vítimas) que acompanham Pelle na magistral cena final em uma terra arrasada diante de uma pilha de estatuetas de Cristo de madeira jogadas no lixo.

“Songs from the Second Floor” pode não trazer muita esperança, mas, pelo menos, nos permite rir do juízo final embora não seja muito fácil. Embora o filme seja ambientado no patético pânico diante da iminência do “bug do milênio” do ano 2000, o filme não perdeu nada da sua atualidade e relevância, principalmente quando vemos a Europa atual em meio à crise financeira e, ainda, assombrada pelos seus fantasmas habituais: xenofobia, racismo e neofascismo.

Ficha técnica

  • Título: Songs From the Second Floor (Sanger Fran Andra Vaningen)
  • Direção: Roy Andersson
  • Roteiro: Roy Andersson
  • Elenco: Lars Nordh, Stefan Larsson e Bengt Carlsson
  • Produção: Danmarks Radio, Easy Film, Nordisk Film & TV-Fond
  • Distribuição: New Yorker Films (EUA), Europafilm AS
  • Ano: 2000
  • País: Suécia, Noruega e Dinamarca




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