Mais Sobre Escadas


                           Julio Cortazar
 
Em algum lugar da bibliografia que não quero lembrar, foi explicado uma vez que há escadas para subir e escadas para descer, o que não foi dito na ocasião é que também pode haver escadas para is para trás.
         Os usuários desses úteis artefatos entenderam sem esforço excessivo que qualquer escada vai para trás se a gente sobe de costas, mas o que resta saber nesses casos é o resultado de tão insólito processo. Faça-se o teste com qualquer escada externa; superado o primeiro sentimento de incômodo e mesmo de vertigem , se descobrirá em cada degrau um novo âmbito que, embora faça parte do âmbito do degrau precedente, ao mesmo tempo o corrige, critica e amplia. Pense-se que pouquíssimo tempo antes, na última vez em que se subiu nessa escada da maneira usual, o mundo de trás era abolido pela própria escada, sua hipnótica sucessão de degraus; mas basta subi-la de costas  para que um horizonte a princípio limitado pelo tabique do jardim pule agora para o campinho dos Penaloza, depois abarque o moinho da turca, estoure nos álamos do cemitério e, com um pouco de sorte, chegue até o horizonte de verdade, o da definição que a professorinha da terceira série nos ensinava. E o céu, e as nuvens? Conte-as quando estiver no topo, beba o céu que lhe cai em plena cara por seu imenso funil. Quem sabe depois, quando der meia-volta e entrar no andar alto da sua casa, em sua vida doméstica e diária, perceba que também ali é preciso olhar muitas coisas dessa forma, que também numa boca, num amor, num romance, é preciso subir para trás. Mas tome cuidado, é fácil tropeçar e cair; há coisas que só se deixam ver quando se sobe para trás e outras que não querem, têm medo dessa subida que as obrigue a despir-se tanto; obstinadas em seu nível e em sua máscara, vingam-se cruelmente de quem sobe de costas para ver outra coisa, o campinho dos Penaloza ou os álamos do cemitério. Cuidado com essa cadeira; cuidado com essa mulher.

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