Senza Fine





Senza fine, tu sei un attimo senza fine
Non hai ieri. non hai domani
Tutto è ormai nelle tue mani. (Gino Paoli)
Ah, esqueci de dizer que essa mulher que você está vendo chorar na frente do computador, essa dona que assiste o vídeo da Ornella Vanoni e Gino Paoli pela oitava vez, essa aí, essa não sou eu. Eu não choro mais. Faz muito tempo eu sei que ”non è vero che l’amore è per sempre”. Ela chora muito, coitada. Eu mantenho essa distância e espero a ocasião para tomar meu lugar. Fico só de longe até que o vídeo acabe.
Veja bem que para mim não fazem sentido as mudanças de cenário, que são rápidas demais, eu me perco na narrativa, esqueço o que ia dizer e, quando vejo, já estamos em outro quarto, outras cortinas rendadas voando, e nós rodopiamos em volta dessa imensa cama que foi de minha avó, as peças de roupas atiradas entre risos, e a taça de vinho na sua mão, contra a luz, distorcendo as linhas do seu queixo.
Não, eu não. Não acredito mais, desde então, no amor “senza fine”. Nem no amor eu acredito, imagine se vou acreditar em amor para sempre.
Você se lembra? Era outono, um outono brasileiro, claro, mas, mesmo assim, as folhas do quintal se acumulavam pelos cantos e denunciavam os visitantes antes dos latidos do cachorro (como era mesmo o nome dele?). Antes que chegassem à porta, entrassem no quarto.
Olha lá, ela está mudando para outro sítio. Preciso me preparar para entrar em cena. Só eu consigo responder a tantas mensagens. Ela quer ler tudo, ri das piadas que Alice lhe manda todos os dias. Eu não. Apago as mensagens de compras fáceis, as correntes para salvar a menininha que precisa de transplante, as outras para salvar o globo, as profecias e maldições dos pastores eletrônicos.
E por que, de vez em quando, eu acordo num quarto de hospital, a luz mortiça das persianas escondendo o sol? Outro dia, alguém me perguntava se eu sabia onde estava. Respondi que sim, que era um hospital, e tal, e esse alguém sorriu e me apresentou um prato de sopa rala e fumegante, como se eu fosse mulher de tomar sopas, ainda mais em quartos de hospital.
Sim, me chamo Clarice. Pierre gostava de me chamar de Madame Bovary, naquele outro quarto, naquele outro outono. Dizia que eu era boa para inventar qualidades e defeitos. Quem é Pierre? Ora, eu já lhe disse, era o marido de Clarice. Não, não meu, dela.
Ela assistiu todas as versões de “Senza Fine”, desde que Ornela e Gino eram jovens. Ela chora quando eles se olham, sempre da mesma maneira, por anos a fio. Ela chora. Eu não, eu rio, porque sei que ensaiaram antes de gravar cada uma dessas apresentações.
Ela se chama Clarice e se encontrava com Pierre naquela casa vazia, naquele outono. Uma casa velha de sua avó morta, uma casa nos arredores da cidade. O quarto de janelas amplas para o pátio, o cachorro do caseiro. As cortinas de renda voando, a enorme cama de dossel, ninguém ouviu o barulho das folhas pisadas, ninguém ouviu o cachorro latindo. Ríamos, tontos do vinho, em volta da cama, as roupas atiradas ao vento. Foi Clarice que abriu a porta e nos viu livres e nus, tontos de vinho. Ela me olhava com esse olhar que ficou para sempre preso no seu rosto, essa incredulidade, esse espanto único e para sempre paralisado, como o filme no “pause” enquanto vamos ao banheiro. Eu a vejo sempre assim. Olhe só, ela ri da piada que Alice lhe mandou hoje. No hospital deixam que tenha o computador, onde escreve seus versos ao amor eterno.
Eu estou aqui, como vê, esperando minha vez.

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