Reproduzo a Nota de Repúdio do Instituto Wladimir Herzog


DOMINGO, 4 DE MARÇO DE 2012

Nota de Repúdio - Instituto Vladimir Herzog

O general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva, em entrevista a Miriam
Leitão, das Organizações Globo, disse ontem (1/3/2012) que a Comissão da
Verdade, prevista em lei sancionada pela Presidência da República em
Novembro de 2010, é “maniqueísta” e parcial porque seu objetivo é “promover
o esclarecimento de torturas, mortes, desaparecimentos forçados e ocultação
de cadáveres”. Acha ele que, para assegurar a imparcialidade da comissão,
ela também deveria investigar atos de violência cometidos por aqueles que
combatiam a ditadura.

Depois de sugerir que os desaparecimentos do deputado Rubens Paiva e de
Stuart Angel só sensibilizam até hoje a opinião pública porque eles
pertenciam às “classes favorecidas”, o general Rocha Paiva mostra duvidar de
que a presidente Dilma Rousseff tenha sido torturada na época da ditadura.
E, quando Miriam Leitão lembrou que “Vladimir Herzog foi se apresentar para
depor e morreu”, Rocha Paiva questiona: “E quem disse que ele foi morto
pelos agentes do Estado? Nisso há controvérsias. Ninguém pode afirmar.”

Como se alguém que se apresentara para depor não estivesse sob a guarda e a
responsabilidade do Estado e de seus agentes. Como se assegurar a
integridade física e a própria vida de um depoente, qualquer depoente, não
fosse obrigação oficial fundamental do Estado e de seus agentes, a quem ele
se apresentara. Como se a Justiça do Brasil já não houvesse reconhecido
oficialmente, há 33 anos, em decorrência de processo movido pela viúva
Clarice Herzog e seus filhos, que Vladimir Herzog foi preso, torturado e
assassinado nos porões da ditadura, por agentes do Estado.

Além de tudo isso, posteriormente, em julgamento proferido no âmbito da
Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, criada pela Lei nº
9.140/96, o próprio Estado brasileiro ratificou o reconhecimento dessa
prisão ilegal, tortura e morte.

Ao indagar, mais adiante, “Quando é que não houve tortura no Brasil?”, o
general tenta justificar em sua entrevista os martírios que foram
perpetrados pela ditadura deixando entender que torturar é uma atividade
legitimada e consagrada pelos usos e costumes nacionais.

General, tortura nunca foi usos e costumes, nem no Brasil nem em lugar
algum. Sempre foi e é a violação do império da lei, que condena quem
tortura. Tanto que a nossa Constituição Federal é taxativa ao determinar que
“ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”
(art.5º, inciso III). E impor o respeito à lei – não vi olá-la – é o dever
precípuo mais básico dos agentes do Estado. Esses agentes estão cobertos
pelo manto institucional, portanto exercem um poder infinitamente maior que
qualquer outro cidadão.

É por isso, por ser um crime cometido pelo Estado – não por cidadãos comuns,
julgados pela Justiça comum – que as torturas e mortes perpetradas por
agentes do Estado e sob sua bandeira são o que precisa ser investigado e
exposto pela Comissão da Verdade. Não acobertado pelo Estado ou por qualquer
de suas instituições.

E a imparcialidade da Comissão estará em agir à luz da Justiça e da lei ao
investigar e expor os crimes cometidos pelo Estado e seus agentes – não ao
talante de quem detém o poder.

Tudo isso torna claro que a manifestação do general Luiz Eduardo Rocha Paiva
atenta contra o Estado Democrático de Direito, também preconizado na
Constituição Federal do Brasil, que tem entre seus fundamentos “a dignidade
da pessoa humana”, além da República Federativa do Brasil reger-se nas suas
relações internacionais pelos princípios, entre outros, da “prevalência dos
direitos humanos” (Constituição Federal, arts. 1º, III, e 4º, II).



INSTITUTO VLADIMIR HERZOG

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