Sob o sol do meio dia (ficção sobre a realidade).



Sonia Nascimento 
Memórias de petroleira.

Estávamos na pracinha central. Algumas pessoas saiam do almoço, em grupos homogêneos, como mandava a norma: os do restaurante 3 vestindo macacões cinza, palitando os dentes, alguns rindo muito alto, outros enfezados com a comida; os do 2 vestidos com roupas comuns, a maioria mulheres, que conversavam sobre a novela, a secretária do super, a liquidação da Sears. E, naturalmente, os do restaurante 1, com aquela cara de satisfação por terem sido servidos à mesa, por garçons impecáveis, a mesma comida do restaurante dois e três. Vinham também em grupos, alguns vestiam terno e gravata, outros procuravam disfarçar com ridículos safaris o hábito recém abandonado da farda engomada. Eu, ali na pracinha, de riponga. Meu amigo Orim contava as últimas do coronel, que mandou suspender o Mendanha por ter ligado para o Rio de Janeiro na hora extra, no único telefone da unidade que permitia ligações interurbanas ( o do próprio coronel). O Mendanha era carioca e não via a família há alguns anos. Também não tinha dinheiro para interurbanos.

         Naquela hora o sol sempre estava muito quente, mas a gente gostava de ficar no banco da praça, olhando o povo que saia do restaurante, falando abobrinhas, cantando as músicas dos festivais, eu, ele e Atilegna.  O Orim estava na mira dos olheiros do coronel. Todo mundo sabia que era comunista e ele não fazia segredo de suas convicções, mas assim não tinha graça. Aquele pessoal queria pegar o cara soltando panfleto, instalando uma bomba ou coisa parecida, e o negócio do Orim era falar.
Então aconteceu. No começo eu mesma não entendi direito, pois vi aquele grande objeto prateado vir crescendo do céu para a pracinha, uma nave do tipo “2001, uma Odisséia etc”. Pensei primeiro que era o povo da manutenção, afinal os barracões ficavam ali, do outro lado da praça. Mas não, aquela coisa crescia muito rápido na nossa direção, do céu sem helicóptero que lhe guiasse, vinha soltinho o negócio, por vontade própria. O que eu não via era o cabo de aço do guindaste do outro lado da estrada, além da cerca, ofuscado pelo sol do meio dia. Pensei e matutei, muito rápido e de boca aberta, e nisso era acompanhada por Orim e Atilegna e todos os outros que saiam dos restaurantes 1,2 e 3: “que porra é essa?”. 
O objeto não identificado instalou-se rapidamente no centro da praça, grande nave mãe com cara de Enterprise sob sol escaldante. O coronel corria na direção, vinham os bombeiros atrás dele, naquele tempo eles chamavam os da segurança industrial de bombeiros. E o velho não teve dúvidas: “-teje preso, cabra safado” – pro Orim, coitado, que ainda continuava de boca aberta, olhando aquela prataria insondável e hermética. –“Terroristas a serviço de Moscou, o que vocês estão pensando? Invadindo a unidade pelo espaço? “– E virando pros bombeiros: -“prendam ele” . Mas os homens, como nós, abriam caminho para o “disco voador”, que era, na verdade, a primeira grande peça de uma nova esfera, que ia servir para armazenar o GLP e ia ser instalada pra lá do rio, do lado da escola técnica, no setor de transferência e estocagem, mas que não conseguia passar pelo portão principal.

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