quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O bem-te-vi



Sonia Nascimento

Quando vim para Antonina, meus sobrinhos postiços costumavam passar o verão em nossa casa. Eron e Tamiris eram os mais frequentes. Brincavam muito com Daniel, que morava conosco e esperava pelas férias para ficar com os primos também postiços. Num verão muito especial, um filhote de bem-te-vi caiu do ninho e as crianças se encheram de cuidados e carinhos com o bebezinho horroroso, um bichinho que parecia um frango depenado em miniatura pronto a ser assado. Tinha um bico sempre aberto e barulhento, que as crianças enchiam de farelo de pão e de água com um conta-gotas. O ninho improvisado numa caixa de charutos do tio Paulo foi forrado de algodão, de guardanapo de papel, de tecidos em tiras, para imitar o carinho da mãe passarinha. Colocamos esse ninho numa mesa de concreto que ficava embaixo da árvore de onde caíra o rebento, com a esperança de que os seus pais legítimos viessem cuidar dele. As crianças cuidavam muito bem do bichinho e, para meu espanto, os pais passarinhos também. Quando não havia ninguém por perto (as crianças se escondiam), os bem-te-vis adultos alimentavam seu filhote no ninho improvisado.  E assim, aquela coisinha feia foi se transformando numa bolinha emplumada, e ficou pronto para os exercícios de voo, o que me deixava louca de medo de ver o bichinho virar comida dos cachorros de casa, que viviam curiosos para conhecer o habitante daquela caixa de charutos. Volta e meia achávamos o filhote caído fora da mesa e do ninho, mas os cachorros, milagrosamente, pareciam não enxergá-lo. Esse bem-te-vi, um dia, sumiu do ninho. Chorei abraçada às crianças, julgando que a Brenda ou o Chico tivessem feito, finalmente, uma refeição do bichinho. Qual nada, ele cantou um canto bem desajeitado, na árvore de onde caíra. Estava salvo e pronto pra alçar voos. Foi-se embora quando acabou o verão, mas um casal de bem-te-vi sempre volta pra minha casa em agosto, para fazer ninho e comer a ração dos cachorros, que já não são os mesmos de outrora. Nem as crianças voltaram mais para os verões cheios de algazarra e descobertas. Foram para o mundo, para seus caminhos e solidões.  

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